Carne de laboratório pode ser o futuro da alimentação?

O consumo de carne, principalmente a bovina, se tornou um assunto muito comentado nos últimos anos e até o Banco Bradesco gerou polêmica no início do ano de 2022 ao sugerir que as pessoas não deveriam comer carnes às segundas-feiras baseado no movimento americano Meatless Monday. Agora, seria a carne de laboratório uma opção para o futuro e fim desse debate?

 

No final de 2021 a start-up israelense MeaTech 3D apresentou o maior bife do mundo criado em laboratório. Com o peso de 110 gramas, o alimento é composto de células reais, de músculo e gordura, derivadas de amostras de tecido de vaca.

 

Imagem de carne servida num prato como exemplo do que a carne de laboratório pode ser

 

Receita

 

Você deve estar se perguntando como foi feito esse bife. Então, o processo não é simples. Células-tronco (que têm o potencial de originar qualquer tecido vivo) bovinas são colocadas em biorreatores (sistemas que mantêm a temperatura e todos os nutrientes que as células precisam para se multiplicar e se diferenciar em gordura e músculo). Em seguida, colocam-se essas células sobre uma matriz de colágeno e levadas à impressora biológica para adquirir forma tridimensional.

 

Apesar de a receita ter funcionado, a carne de laboratório ainda está longe dos nossos pratos. Em 2022, a empresa israelense pretende começar a vender células de gordura para a criação de outros produtos. Enquanto a previsão de chegada no mercado é de cinco anos.

 

Brasil

 

Aqui no Brasil, duas grandes empresas já mostraram interesse em produzir e comercializar carne de laboratório. A BRF, dona da Sadia e Perdigão, investiu US $2,5 milhões na Aleph Farms, uma das companhias israelenses mais avançadas nessa tecnologia. O objetivo é lançar o produto no Brasil até 2024, fabricado aqui ou importado.

 

Já a JBS investiu US $100 milhões na compra de 51% da empresa espanhola BioTech Foods, especializada em proteína cultivada — ou seja, carne feita em laboratório, a partir de células animais.

 

Desse total, 41 milhões de dólares serão para a construção de uma nova fábrica na Espanha para dar escala à produção. O restante será utilizado para a JBS implantar o primeiro centro de P&D voltado para o estudo de biotecnologia de alimentos e proteína cultivada no Brasil. Além de carne bovina, a tecnologia também poderá ser usada para imitar frangos, suínos e pescados.

 

Posicionamento

 

De acordo com o professor Sérgio Pflanzer, da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, o objetivo dos grandes produtores de carne ao fazer investimentos é não ficar de fora de algo novo e passar uma imagem positiva ao público ao demonstrar que busca formas alternativas ao abate animal.

 

Ainda segundo Pflanzer, ele realizou um estudo junto com colegas estrangeiros, que foi publicado na revista científica Foods, que avaliou a opinião de 4,4 mil pessoas no Brasil sobre carne de laboratório.

 

A amostra mostrou que 66% das pessoas provariam a carne de laboratório e 60% afirmaram que aceitariam comê-la regularmente. Mas só 5% aceitariam pagar um pouco a mais por ela. Para o professor qualquer alimento no mundo só emplaca e se torna popular, se for acessível. ”Não adianta dizer que é ecológico, saudável, amigo ou mais bonito”, afirma Pflanzer.

 

Vantagens

 

Para continuar alimentando a população, que deve chegar a quase 10 bilhões de pessoas em 2050, a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que será necessário aumentar a produção de alimentos em 70%.

 

Nesta direção, produtos como a carne de laboratório se tornam uma necessidade para garantia da segurança alimentar, em especial porque reduzem o impacto da produção de alimentos no meio ambiente.

 

A criação de gado bovino responde por cerca de 65% das emissões de gás carbônico do setor agropecuário. Com isso estando acima de outras espécies, como porco e frango. Em tese, a carne de laboratório tem potencial para ser uma alternativa mais sustentável.

 

Desvantagens

 

Ainda não há análises que provem o impacto ambiental da carne de laboratório. Se por um lado a produção da carne cultivada pode vir a ser mais ecológica no que diz respeito às emissões de gases que causam o efeito estufa, outros impactos precisam ser levados em conta, como o consumo de energia e a possibilidade de que o processo crie subprodutos químicos prejudiciais à natureza.

 

Some a isso, os biorreatores usados no desenvolvimento do alimento, que consomem grandes quantidades de energia elétrica. Caso a produção seja a partir de combustíveis fósseis, a conta da redução do impacto ambiental pode não fechar.

 

Por exemplo, em Israel e Cingapura, países mais avançados na criação de carne cultivada, 96% da energia elétrica depende da queima de combustível fóssil, como gás e óleo.

 

Outra incerteza sobre a carne cultivada é o preço. Em 2013, quando o primeiro “hambúrguer de laboratório” surgiu, o custo foi de US$ 300mil. Em 2020, uma empresa disse ter gastado cerca de US$ 50 para produzir um nugget de frango.

 

Mercado atual

 

Enquanto cresce a demanda mundial por carne, há uma expansão no mercado na busca por alternativas 100% vegetais ou híbridas. Nos últimos anos, gigantes do mercado de alimentos embarcaram na tendência e adicionaram linhas híbridas aos seus catálogos de produtos.

 

Exemplos

 

A Tyson, maior processadora de carne dos EUA, lançou pela marca Aidells Whole Blends salsichas e almôndegas de carne com misturas vegetais, como frango com espinafre e queijo feta ou frango com abacaxi desidratado.

 

Segundo pesquisa do Ibope Inteligência feita em abril de 2018, 14% da população brasileira se declara vegetariana, o que representa cerca de 30 milhões de pessoas. Agora, as gigantes de proteína animal Seara (JBS), Sadia e Perdigão (BRF) e Marfrig entraram na briga por esse nicho de mercado, lançando produtos à base de plantas.

 

A JBS lançou a linha Incrível Seara no Brasil em dezembro de 2019. A linha de alimentos 100% vegetais é feita a partir de proteína de ervilha e soja, enriquecida com ferro e vitamina B12, não tem gordura trans, lactose ou derivados de ovos e leite.

 

A empresa também afirma que a linha Incrível possui a “Biomolécula i”, que garante sabor e textura similar aos produtos feitos de proteína animal. O rol de alimentos conta com hambúrgueres, salsichas, nuggets entre outros.

 

Já a BRF apresentou em 2020 a linha Sadia Veg&Tal composta por hambúrguer, bacon e nuggets à base de vegetais, além da torta de massa de iogurte. O hambúrguer tem base de proteína vegetal, com compostos como:

  • óleo de coco
  • proteína de soja
  • óleo de girassol
  • cebola
  • beterraba
  • fibra de batata
  • ervas e especiarias
  • sal
  • alho
  • tomate.

 

Enquanto a Marfrig lançou em 2019 seu hambúrguer vegetal após três anos de estudos sobre a tecnologia de produção e o mercado de produtos à base de proteína vegetal.

 

Em setembro de 2019, a empresa lançou o Rebel Whopper, um sanduíche de hambúrguer vegetal, em parceria com o Burger King. Depois, em janeiro de 2020, o Outback Steakhouse começou a comercializar o hambúrguer – O Revolution servido no restaurante é mais artesanal.

 

Conclusão

 

O mercado mostra que a dieta vegetariana e vegana não são mais tendências e sim realidade. Ou seja, muitas empresas do setor alimentício terão que visar esse nicho, que cresce a cada dia, oferecendo opções sem carne e também sem produtos de origem animal.

 

Embora o preço para produzir a carne de laboratório ainda seja alto e tenhamos poucas informações sobre sua textura e sabor, o investimento de grandes marcas em pesquisa e inovação devem reduzir esses problemas junto com o aumento da demanda por alternativas de alimentação mais sustentáveis.

 

Por fim, aqui no blog do Gepea já falamos sobre proteína animal e você pode ler neste link. Também estamos à disposição para parcerias, basta entrar em contato

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