Nos últimos anos, os alimentos ultraprocessados ganharam espaço nas discussões sobre alimentação e saúde. Enquanto alguns consumidores associam esses produtos diretamente a uma alimentação inadequada, outros destacam sua praticidade, acessibilidade e maior vida de prateleira. Diante dessas diferentes perspectivas, surge uma questão: afinal, os alimentos ultraprocessados são realmente vilões?
Para responder a essa pergunta, compreende-se o que caracteriza um alimento ultraprocessado, como produzi-lo e quais fatores considera-se ao avaliar seus impactos na alimentação. Dessa forma, a discussão deixa de estar baseada apenas em classificações e passa a considerar a composição, a frequência de consumo e o contexto alimentar como um todo.

O que são alimentos ultraprocessados?
Os alimentos ultraprocessados são formulações industriais produzidas a partir de diferentes ingredientes e substâncias obtidas de alimentos ou sintetizadas industrialmente. Seu processamento pode envolver diversas etapas e a utilização de ingredientes como óleos, açúcares, amidos, proteínas, aditivos e outros componentes.
De acordo com o sistema de classificação NOVA, os alimentos são organizados em quatro grupos de acordo com o grau e a finalidade do processamento: alimentos in natura ou minimamente processados, ingredientes culinários processados, alimentos processados e alimentos ultraprocessados.
Os ultraprocessados se diferenciam dos demais grupos por apresentarem formulações mais complexas e serem desenvolvidos, em geral, para apresentar características como maior praticidade, durabilidade, palatabilidade e conveniência.
Entre os produtos classificados nessa categoria estão alguns refrigerantes, biscoitos recheados, salgadinhos, cereais matinais, refeições prontas e outros produtos formulados industrialmente.
Por que o consumo grande de ultraprocessados?
A presença dos ultraprocessados na alimentação está relacionada a diversos fatores que vão além de suas características nutricionais.
A praticidade é um dos principais aspectos. Produtos prontos ou que exigem pouco preparo podem facilitar a rotina de consumidores que possuem pouco tempo disponível para cozinhar. Além disso, tecnologias de processamento e conservação permitem aumentar a vida de prateleira dos alimentos, facilitando seu armazenamento e distribuição.
Outros fatores também influenciam o consumo, como preço, disponibilidade, publicidade, conveniência e características sensoriais.
Dessa forma, o aumento do consumo desses produtos não pode analisar-se apenas pela perspectiva das escolhas individuais, mas também deve considerar o ambiente alimentar e as condições sociais e econômicas que influenciam essas escolhas.

Todo alimento ultraprocessado faz mal?
A classificação de um alimento como ultraprocessado não significa, isoladamente, que todos os produtos pertencentes a essa categoria apresentem a mesma composição nutricional ou os mesmos impactos à saúde.
Produtos diferentes podem apresentar quantidades distintas de açúcares, sódio, gorduras, fibras, proteínas e outros nutrientes. Por isso, a avaliação da qualidade nutricional de um alimento também deve considerar sua composição e a quantidade consumida.
Entretanto, estudos epidemiológicos têm associado o consumo elevado de alimentos ultraprocessados a diferentes desfechos negativos de saúde. Essas associações reforçam a importância de uma alimentação baseada predominantemente em alimentos in natura ou minimamente processados, sem que isso signifique que todos os produtos industrializados devam ser analisados da mesma maneira.

O papel da indústria de alimentos
O processamento de alimentos desempenha funções importantes para a sociedade, como aumentar a segurança, facilitar a conservação, reduzir perdas e ampliar a disponibilidade de alimentos em diferentes regiões.
Nesse contexto, a indústria de alimentos possui o desafio de desenvolver produtos que conciliem segurança, estabilidade e qualidade sensorial. Além disso, a praticidade e características nutricionais adequadas às necessidades dos consumidores.
A inovação tecnológica pode contribuir para esse processo por meio do desenvolvimento de novas formulações, redução ou substituição de determinados ingredientes, utilização de matérias-primas alternativas e criação de produtos que atendam às novas demandas do mercado.
Além disso, informações claras na rotulagem permitem que o consumidor tenha maior conhecimento sobre a composição dos produtos. Assim, pode realizar escolhas de acordo com suas necessidades e preferências.

Então, ultraprocessados são heróis ou vilões?
A resposta não é tão simples quanto classificá-los em apenas uma dessas categorias.
Os alimentos ultraprocessados fazem parte de um sistema alimentar complexo e podem apresentar diferentes características de composição, finalidade e contexto de consumo. Ao mesmo tempo, o consumo elevado e frequente desses produtos tem sido associado a impactos negativos à saúde. Reforçando a importância de priorizar uma alimentação diversificada e baseada principalmente em alimentos in natura ou minimamente processados.
Assim, mais do que definir os ultraprocessados como heróis ou vilões, é necessário compreender o papel que esses produtos ocupam na alimentação e os fatores envolvidos em sua produção e consumo.
Para a indústria e para os empreendedores do setor alimentício, esse cenário também representa uma oportunidade de inovação. O desenvolvimento de produtos que conciliem praticidade, qualidade, segurança e melhores características nutricionais pode acompanhar as mudanças nas expectativas dos consumidores e contribuir para um mercado de alimentos cada vez mais diversificado.
Nesse contexto, o GEPEA – Consultoria em Alimentos atua no desenvolvimento e aprimoramento de produtos alimentícios, oferecendo suporte técnico. As áreas de atuação são: estudo de viabilidade, análises laboratoriais e sensoriais, estudo de embalagem, rotulagem e tabela nutricional.